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LUTO NA INFÂNCIA

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“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais…” (Memórias de Emília – Monteiro Lobato)

Nessa semana de finados, não poderíamos deixar de abordar um pouco sobre um tema pouco citado, que é o “Luto na infância”. Afinal, a criança passa por esse momento? “Em qualquer fase da vida, perder uma pessoa querida e próxima gera tristezas e luto. Durante a infância uma perda pode ser ainda mais significativa, afetando as crianças de forma diferente” (BROTTO). Apesar disso, as crianças são as mais esquecidas na hora de falar de luto. O luto na infância implica perdas. Como adultos, precisamos ajudar as crianças a expressar suas emoções e a verdade é que às vezes não estamos preparados para acompanhá-las neste processo. Então, neste artigo vamos aprender estratégias para acompanhar o luto dos pequenos.

Nesse “não saber o que fazer”, você já deve ter ouvido quando falece algum ente querido ou familiar próximo de uma criança e o adulto por sua vez, afim de transmitir a informação a ela, acaba tendo medo que a criança entre em contato com a morte e na tentativa de protegê-la e evitar que ouça essa palavra, dizendo frases que ao invés de ajudar a criança a lidar com isso acaba por confundir ainda mais a cabecinha dela. Quem nunca ouviu “nossa, o vovô virou uma estrelinha lá no céu!” Ou, “o seu avô foi morar com Deus!” Ou ainda “o seu avô foi fazer uma longa viagem!” Isso é muito comum na nossa sociedade. Porém, o que muita gente não sabe é que a criança até os 10 (dez) anos de idade, tem o seu pensamento concreto, ou seja, ela não tem a capacidade de abstrair as coisas, não conseguindo ver o sentido subjetivo das coisas, então, essa criança levará tudo ao ‘pé da letra’. Dessa forma, se falamos que o fulano virou uma estrelinha no céu ela irá acreditar mesmo que essa pessoa virou estrelinha, e não é estranho que essa criança procure encontrar meios para reencontrá-los, para tentar ir ao céu ou então, se revoltar com Deus, porque ele convidou aquela pessoa para deixá-lo, ou quando dizem que a pessoa foi viajar, como consequência ela pode associar que todos que vão viajar não voltará mais.

Sendo assim, qual é a maneira correta de falar para a criança? Posso garantir a vocês que é mais simples do que imaginam, basta usar da honestidade e sinceridade!  Por sorte a maioria das crianças resolve o seu luto sem grandes complicações. Isso não significa que não seja menos importante conhecer diferentes estratégias para ajudá-las, entendendo assim um pouco mais o processo do luto infantil. Além disso, a forma como nós lidamos com o sofrimento de perder alguém determinará o processo das crianças que nos rodeiam.

Na maioria das vezes associamos o luto à morte, mas o processo engloba outras perdas: perda de um emprego, perda de um ser querido, de um animal de estimação, perda de um relacionamento, ou seja, o luto é o processo de adaptação emocional que acompanha qualquer perda. Sem dúvida a morte de um ser querido ou um familiar é a situação mais difícil que teremos de aceitar. Da nossa capacidade de adaptação à nova situação, da nossa resiliência, irá depender o que vivermos de uma forma ou de outra. A morte de alguém querido provoca dor, tristeza, vazio, solidão, dentre outras, e todas estas emoções precisam vir à tona para que possam ser administradas. As crianças também sentem estas emoções.

E como podemos ajudar? A ajuda que podemos dar a qualquer criança, jovem adolescente ou mesmo adulto é partilhar os seus sentimentos. Deixar que fale, grite ou chore, se necessário. Levarem ao cemitério juntos e colocar flores, são atos simbólicos que facilitam o luto e ligam efetivamente as pessoas. Permitir que se fale normalmente sobre o falecido, recordando os momentos bons é mantê-lo vivo na memória de todos. Se a criança quiser ver um filme onde está o pai/mãe que faleceu ou outro ente querido, não há motivos para a impedir. É certo que causa alguma saudade ou tristeza, mas estas emoções e sentimentos fazem parte da vida e assim deverão ser encarados. Havendo informação e apoio, torna-se possível que as crianças se enlutem de uma forma tão sadia como os adultos, mas há que saber dosar essa realidade. É um pouco como falar de sexo a uma criança. Primeiro temos que perceber o que é que a criança já sabe sobre o assunto, para depois irmos dizendo à medida da necessidade de cada uma. Não vale a pena romancear o tema se a criança já souber de tudo. Assim se sentirá enganada, já que mais cedo ou mais tarde terá que perceber que o morto não voltará mais! Depois é fornecer-lhes o apoio necessário para que viva o seu luto de uma forma saudável. Não ter um processo de luto adequado, pode mais tarde traduzir-se na incapacidade de estabelecer relacionamentos próximos devido ao medo constante da perda.

 

Monize Salvatti Scudero é Psicóloga Especialista em Psicopedagogia – CRP: 06/124916 –  

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